Caracas (RV) - Como tinha prometido o Presidente venezuelano, Nicolás Maduro, removeu do seu cargo a Procuradora-geral Luisa Ortega, acusada de proteger a oposição. “No país está em andamento um golpe contra a Constituição, vou lutar até o último suspiro pela democracia”, denunciou Ortega, histórica expoente chavista e uma das vozes mais fortes contra Maduro. A Procuradoria Geral abrira uma investigação na quarta-feira passada sobre alegações de fraude nas eleições para a Constituinte e pedira que as mesmas fossem canceladas. Para substituir Ortega, foi escolhido Tarek William Saab, próximo a Maduro e ex-defensor dos direitos civis, enquanto para a ex-promotora, que agora está com suas contas bancárias bloqueadas e não pode deixar o país, se prevê um processo.

Entretanto, continua o êxodo de venezuelanos em direção a países de fronteira.

São, sobretudo a Colômbia, o Equador, o Chile e o Peru os países para onde milhares de venezuelanos estão se dirigindo em fuga de sua pátria. “Uma diáspora sem precedentes” a definiu a Rede que se ocupa das migrações sob a égide do Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam). Em quatro meses de protestos contra o Presidente Nicolás Maduro, que foram fortemente reprimidos, a crise política e social na Venezuela causou a morte de mais de 120 pessoas, bem como prisões e conflitos indiscriminados. E com o estabelecimento da contestada Assembleia Constituinte, à qual a Santa Sé também pediu a suspensão em “um clima de tensão e conflito”, as condições de vida das pessoas se agravaram ainda mais.

Foge-se da Venezuela porque a situação é “invisível” devido à fome, às desordens, à insegurança social, mas também à violência “por parte de grupos armados”, principalmente “paramilitares apoiados pelo Estado venezuelano”, afirma o Padre Francesco Bortignon, escalabriniano, Pároco em Cúcuta, no norte da Colômbia, na fronteira com a Venezuela. Há 21 anos missionário no país que em setembro receberá a visita do Papa Francisco, Padre Bortignon é o Diretor do Centro para Migração e Acolhimento, Casa de Paso.

R. - A situação da fronteira é realmente difícil, complicada e variável. Existe uma fuga significativa de venezuelanos em direção à Colômbia ou com o sonho de chegar ao Equador, Chile e Peru, porque a situação invisível é devida à fome, à violência e a todas as inseguranças sociais que se verificam na Venezuela nos últimos meses, ligadas em particular, à questão da eleição da Assembleia Constituinte.

P. Há um aumento nos fluxos de migrantes em relação ao passado?

R. - A situação se degenerou dois anos atrás, com uma verdadeira e real “deportação” dos colombianos - provavelmente quatro ou cinco milhões - que viviam e trabalhavam na Venezuela. Foram expulsas pessoas que viviam ali há dez, vinte, trinta anos. Os documentos foram retirados e eles foram “deportados”. Em seguida, começou a emigração dos próprios venezuelanos que, por motivos de fome e de insegurança política, pelas ondas de extrema violência de grupos armados, que são praticamente paramilitares apoiados pelo Estado venezuelano, começaram a fugir do país. Os números são sempre variáveis, no entanto, no nosso Centro de Migração, chegaram cerca de 2.500 pessoas no ano passado. Mas, no que se refere à situação da fronteira em geral, fala-se de uma onda de 27 mil pessoas dois anos atrás. Neste ano, especialmente nos últimos seis meses, não há números exatos. Quando recentemente abriram a Ponte Santo Antônio, aqui perto, todos os dias atravessaram a ponte entre 25 e 30 mil pessoas. Ultimamente, parece que dois, três ou talvez cinco por cento destes 25 mil permanecem aqui na Colômbia com a ideia de ir para o interior do país ou para outros países, como Equador, Chile e Peru.

P. Que tipos de assistência são prestados a essas pessoas?

R. - Prestamos assistência de duas formas diferentes. No Centro de Migração, oferecemos os serviços clássicos de acomodação, garantindo a eles refeições. Temos uma série de pessoas que fornecem orientação do ponto de vista psicológico e jurídico. Outro tipo de assistência ocorre nas paróquias, onde, há 30 anos, seguimos a população mais necessitada. Nós estruturamos um sistema educacional que se ocupa de cerca 4.500 crianças. Nesta área, temos um escritório onde recebemos as pessoas, verificamos a possibilidade de direcioná-las do ponto de vista dos direitos legais, portando no que diz respeito à documentação, incluindo o direito à saúde e acesso à educação. (SP)

RV/ Cultura FM